Da Saudade…

Saudade é bicho estranho,

Se esconde as vezes no meio da papelada do dia,

Mas de noite, quando é hora de todos dormirem ela aparece.

 

Remexe palavras guardadas e joga-as pra cima da gente,

Se delicia com sonhos que ficaram no canto como se fossem de padaria,

Escorrega e se acaba de rir nos brinquedos esquecido no chão,

E nessa hora, só as vezes fica séria observando a beleza simples

De uma xícara deixada sobre a mesa

Ainda com o fim do café que ficou por terminar

E uma leve mancha do batom marcando os lábios.

 

Saudade é criança que deita no peito da gente

Com a cabeça a escutar o coração batendo forte

E ai começa a sussurrar com carinho,

Aquela lista que sabe não aconteceu, mas que acontece

No ritmo cadente das batidas cardíacas.

E é nisso que me espanta essa menina saudade,

A capacidade de brincar até com brinquedos que nunca existiram,

Mas que são.

 

Saudade é doce, azedinha as vezes,

Mas quase sempre amarga, de leve, no fim,

Como chocolate meio amargo

Que sempre agrada paladar,

E coração…

Clarence Santos

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Da juventude

Tem dias que me sinto mais jovem,

Que esqueço de minha barba grande

E de meus cabelos brancos,

É a saudade batendo forte e tomando forma

De um tempo antigo que achava até idiota,

Mas que hoje, diferente, penso de outra forma,

Era livre.

Livre de certezas bobas,

De vergonha,

De verdades prontas.

E de coração aberto dançava

Brincando todos os dias,

De dar murro em ponta de faca.

Clarence Santos

Alma…

“E ela ficava a toda hora buscando respostas,
E sem elas inquietava-se, corria, fugia, se esquivava,
Pois queria provas, dados empíricos
para alimentar sua alma antes de um possível “sim”…

e assim ela deixava escapar uma verdade…

que a alma não se alimenta
De fatos,
De dados,
De provas,
a alma, na verdade, de verdade
Se alimenta sim,
É de sonhos e encantamentos…”

Clarence Santos

 

(Ilustração: Memeto Oliveira)

“Da fruta do pecado…”

E comentando hoje sobre paixão, alguém me fala:

“Podia publicar e colocar uma foto de uma maçã, fruta do pecado…”

Na hora que ouvi, retruquei,

Não dá pra dizer que maça é fruta de pecado,

Maçã é fruta triste,

Sem graça, seca, sem gosto, massenta

 

Sempre disse que paixão no começo tem gosto de tamarindo,

Acido, azedinho, mas doce no geral,

Todo mundo que experimentou sabe como é,

Quando a gente olha, a boca saliva, o coração pede…

 

Mas de verdade mesmo,

Se fosse escolher uma fruta da paixão, do amor

Essa seria a manga… Hummm

Essa sim com cara de pecado…

 

Paixão não deve ser só para os olhos, como a maçã,

Carregada na beleza, na estética, mas seca dentro

Mas paixão tem que carregar desejo,

Pois paixão é manga,

Fruta que se despe no toque,

Com potencial erótico…

 

Na manga se lambuza,

Se carrega o cheiro por onde passa…

Se livra de todo pudor

E deixa escorrer por entre os dedos

E no canto da boca o sabor doce que ela carrega

 

Manga é desejo como paixão…

 

Clarence Santos