Sobre ser pai de menina…

Em minha juventude, como homem, branco e heterossexual, a vida e o mundo se apresentavam tranquilos em sua forma, e embora desde cedo, por conta da militância no movimento estudantil e de juventude com a UJS, tenha levantado as bandeiras de lutas contra a violência, misoginia, o preconceito seja lá de que forma se apresentasse, estas situações nunca me afetaram diretamente. Ate que em um certo momento o mundo já não parecia um lugar tão tranquilo e suas mazelas já não se apresentavam tão distantes. Isto se deu pela chegada de Sofia, minha filha, que me colocava agora na condição de pai de uma menina.

Embora este momento de minha vida tenha sido carregado de alegria pura e em seu estado mais extremo, ele trouxe também consigo uma preocupação antes não existente. Começava a ampliar em mim uma nova forma de percepção do mundo em sua crueldade, e principalmente das dificuldades que se colocavam no caminho de minha filha pelo simples fato de se ter nascido mulher.

Neste período comecei a me dar conta de que a violência que ataca as mulheres nesta sociedade patriarcal, começa desde cedo, mesmo que de forma diferente da de outros períodos da vida, mas começa já na criação, meninos e meninas são criados de formas diferentes. Enquanto os meninos em seus brinquedos e brincadeiras são estimulados a serem ativos em seu crescimento profissional e preparação para a competitividade num mundo capitalista, as meninas são estimuladas nos valores competitivos de beleza padrão desta sociedade e na passividade da preparação de minis donas de casa, já desde seus brinquedos até a construção de seu imaginário. Os brinquedos dos meninos são as bolas e os carros, e as fantasias e desenhos são dos super-heróis, enquanto as meninas são as bonecas e as cozinhas de brinquedo, num estimulo de que o cuidar da família exclusivamente é a tarefa primordial da mulher. Os elogios aos meninos sempre se direcionam a sua capacidade motora e intelectual, quando das meninas ficam restritos as questões de beleza e expressões de feminilidade.

Diante das possibilidades de construção de um mundo melhor para minha filha, a única que me salta aos olhos como alternativa acertada a mudança do pensamento machista arraigado em nossas mentes é o feminismo. O que antes em minha ignorância se apresentava como uma luta extrema de um pequeno ponto da sociedade, hoje consigo enxergar como algo urgente e necessário a construção de um mundo melhor. As mulheres que levantaram e levantam esta bandeira não exageram em seus pontos, extremo e exagerado, sim, é a violência sofrida pela mulher em nossa sociedade, a luta pelo respeito, pelo direito de escolha, pelo direito a ser dona do próprio corpo, da própria vida, mesmo parecendo bandeiras absurdas de tão obvias, se apresentam necessidades reais de quem tem todos estes direitos cerceados pela mente retrograda existente na construção social. É impensável mas real que nos dias de hoje seja necessário lutar pelo direito a vida pelo simples fato de ter nascido mulher, pois o machismo mata, e faz suas vitimas todos os dias, enquanto o feminismo busca uma vida cheia de oportunidades e direitos garantidos, vida que quero para pequena Sofia.

Este machismo e esta violência é a que ela será exposta caso não se faça nada, e mesmo fazendo ainda sobrará algo, logo compreendi que ser pai de menina não é e nunca será criar uma pessoa pacifica e passiva a isto tudo, mas lutar e prepara-la pra luta. É não ser a fonte de opressão e não socializa-la a submissão mesmo que inconsciente. É ensina-la que ela não é a princesinha que precisa esperar passivamente, enquanto aprende a cozinhar e se portar, o príncipe encantado para só assim ter um final feliz, este, é responsabilidade dela.

Não mereço troféu, aplausos ou prêmios por pensar e agir assim pois o respeito a ela não é favor que presto ou nenhum homem que passe por sua vida, seja ele namorado, irmão, amigo ou desconhecido, é dever. O amor e a dedicação que dou vai de graça, sem esperar ou cobrar nada em troca, se vier, que seja também nestes termos.

Quero construir junto com ela uma criação que a estimule a ser autora e protagonista de sua própria historia e não objeto passivo na historia de ninguém, que ela não nasceu para ser namorada de ninguém, esposa de ninguém, mãe de ninguém, que em si ela é um ser humano independente e completo.

Não estou completo nesta preparação, ainda tenho muito a aprender e a compreender, tenho em mim ainda muito o que mudar e melhorar, mas por Sofia é isto que quero pra mim, e em Sofia consegui enxergar todas as mulheres do mundo.

 

Pai de uma menina pra mim hoje é isso, ser um homem que luta contra todo tipo de opressão e violência, um homem pró-feminismo.

 

Clarence Santos, Pai da Sofia.

 

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