Sobre feiticeiros…

“O Feiticeiro”

 

Ele achou tudo meio confuso ao que estava acostumado,

Aprendeu, desde sempre, a ler olhos,

Mas desta vez eles se escondiam.

 

Ele tentou a noite toda,

Mas como um guerreiro foge da medusa,

Com medo de virar pedra,

Ela escondia seu olhar.

 

Hora nos cabelos que brilhavam como em festas de Baco,

Outras em meio a danças onde seu corpo virava musica,

Mas ele insistia, até compreender que ela também conhecia da feitiçaria…

 

Os olhos se encontraram, pouquíssimas vezes, depois de muito cansaço,

Mas ele perdeu, feiticeira poderosa, não tentava se esconder,

Descobriu depois, com misto de alegria e tristeza,

Que dos cabelos a dança,

Tudo não passou de um rito perfeito para prende-lo.

 

Clarence Santos

 

(Ilustração: Memeto Oliveira)

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Sobre ser pai de menina…

Em minha juventude, como homem, branco e heterossexual, a vida e o mundo se apresentavam tranquilos em sua forma, e embora desde cedo, por conta da militância no movimento estudantil e de juventude com a UJS, tenha levantado as bandeiras de lutas contra a violência, misoginia, o preconceito seja lá de que forma se apresentasse, estas situações nunca me afetaram diretamente. Ate que em um certo momento o mundo já não parecia um lugar tão tranquilo e suas mazelas já não se apresentavam tão distantes. Isto se deu pela chegada de Sofia, minha filha, que me colocava agora na condição de pai de uma menina.

Embora este momento de minha vida tenha sido carregado de alegria pura e em seu estado mais extremo, ele trouxe também consigo uma preocupação antes não existente. Começava a ampliar em mim uma nova forma de percepção do mundo em sua crueldade, e principalmente das dificuldades que se colocavam no caminho de minha filha pelo simples fato de se ter nascido mulher.

Neste período comecei a me dar conta de que a violência que ataca as mulheres nesta sociedade patriarcal, começa desde cedo, mesmo que de forma diferente da de outros períodos da vida, mas começa já na criação, meninos e meninas são criados de formas diferentes. Enquanto os meninos em seus brinquedos e brincadeiras são estimulados a serem ativos em seu crescimento profissional e preparação para a competitividade num mundo capitalista, as meninas são estimuladas nos valores competitivos de beleza padrão desta sociedade e na passividade da preparação de minis donas de casa, já desde seus brinquedos até a construção de seu imaginário. Os brinquedos dos meninos são as bolas e os carros, e as fantasias e desenhos são dos super-heróis, enquanto as meninas são as bonecas e as cozinhas de brinquedo, num estimulo de que o cuidar da família exclusivamente é a tarefa primordial da mulher. Os elogios aos meninos sempre se direcionam a sua capacidade motora e intelectual, quando das meninas ficam restritos as questões de beleza e expressões de feminilidade.

Diante das possibilidades de construção de um mundo melhor para minha filha, a única que me salta aos olhos como alternativa acertada a mudança do pensamento machista arraigado em nossas mentes é o feminismo. O que antes em minha ignorância se apresentava como uma luta extrema de um pequeno ponto da sociedade, hoje consigo enxergar como algo urgente e necessário a construção de um mundo melhor. As mulheres que levantaram e levantam esta bandeira não exageram em seus pontos, extremo e exagerado, sim, é a violência sofrida pela mulher em nossa sociedade, a luta pelo respeito, pelo direito de escolha, pelo direito a ser dona do próprio corpo, da própria vida, mesmo parecendo bandeiras absurdas de tão obvias, se apresentam necessidades reais de quem tem todos estes direitos cerceados pela mente retrograda existente na construção social. É impensável mas real que nos dias de hoje seja necessário lutar pelo direito a vida pelo simples fato de ter nascido mulher, pois o machismo mata, e faz suas vitimas todos os dias, enquanto o feminismo busca uma vida cheia de oportunidades e direitos garantidos, vida que quero para pequena Sofia.

Este machismo e esta violência é a que ela será exposta caso não se faça nada, e mesmo fazendo ainda sobrará algo, logo compreendi que ser pai de menina não é e nunca será criar uma pessoa pacifica e passiva a isto tudo, mas lutar e prepara-la pra luta. É não ser a fonte de opressão e não socializa-la a submissão mesmo que inconsciente. É ensina-la que ela não é a princesinha que precisa esperar passivamente, enquanto aprende a cozinhar e se portar, o príncipe encantado para só assim ter um final feliz, este, é responsabilidade dela.

Não mereço troféu, aplausos ou prêmios por pensar e agir assim pois o respeito a ela não é favor que presto ou nenhum homem que passe por sua vida, seja ele namorado, irmão, amigo ou desconhecido, é dever. O amor e a dedicação que dou vai de graça, sem esperar ou cobrar nada em troca, se vier, que seja também nestes termos.

Quero construir junto com ela uma criação que a estimule a ser autora e protagonista de sua própria historia e não objeto passivo na historia de ninguém, que ela não nasceu para ser namorada de ninguém, esposa de ninguém, mãe de ninguém, que em si ela é um ser humano independente e completo.

Não estou completo nesta preparação, ainda tenho muito a aprender e a compreender, tenho em mim ainda muito o que mudar e melhorar, mas por Sofia é isto que quero pra mim, e em Sofia consegui enxergar todas as mulheres do mundo.

 

Pai de uma menina pra mim hoje é isso, ser um homem que luta contra todo tipo de opressão e violência, um homem pró-feminismo.

 

Clarence Santos, Pai da Sofia.

 

Doces heresias de um Pastor no exílio… (1)

“Do PVC ao Amor”

E o garoto esperto aqui do lado de onde trabalho arrumou uma solução interessante para saciar suas necessidades completamente justificáveis. É que aqui do lado tem um pé de cajá, que quando ta na época de “dar” fica a coisa mais linda do mundo, extremamente convidativa, toda pintada de verde e amarelo. Porem guarda com ele alguns problemas a serem solucionados antes do deleite, algo como os enigmas da esfinge ou coisa parecida. Ele é alto, muito alto, não dá pra como o desejo pede, apenas estender a mão e saborear daquele delicioso fruto, é preciso algo mais, um instrumento que ajude nisso, e assim são os instrumentos, como me ensinou o poeta, pontes entre o desejo e o prazer.

Mas ele, o menino, “ligado todo” como se diz por aqui, fácil e rapidamente arranjou uma solução, com um cano de PVC “cutucava” o fruto que soltava e escorregava direto para sua mão, que por sua vez, como prestativo instrumento que é, levava a boca, e assim então, o prazer…

O cano de PVC é um instrumento. Usado para passar água, mas, na imaginação e criatividade daquela criança foi muito mais, foi usado pra saciar a vontade, mais que matar a fome, foi utilizado pra realizar seu sonho mais desejado naquela hora, era instrumento de prazer…

O corpo também é um instrumento, mãos pegam, pernas andam, boca come, se reproduz, até a bíblia me confirma isso em Genesis 1:27:

“E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a… “
(Gênesis 1:27-28).

Mas também o corpo é um instrumento sagrado de realização dos desejos, dos sonhos, aliás, como falei, são assim todos os instrumentos, pontes entre sonhos e realizações, entre desejos e prazer… e no final do capítulo do mito cosmogônico Javé fala:

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom.” 
(Gênesis 1:31)

E no mesmo livro sagrado ele nos ensina isso, nossos corpos são também instrumentos de fruição, gozo, prazer, a mesma boca que come, clama por beijos nos Cânticos de Salomão:

“Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho.”
(Cânticos 1:2)

ou até ousa mais quando diz:

“Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar.”

(Cânticos 2:3)

e ainda

“Favos de mel manam dos teus lábios, minha esposa! Mel e leite estão debaixo da tua língua…” 

(Cânticos 4:11).

O corpo é um instrumento de deleite, prazer, assim me ensina o poema sagrado…

Mas não pensam assim os teólogos tradicionais. O corpo é um instrumento de trabalho, nada mais. O PVC deve ser usado para passar água e nada mais. O prazer é pecado. Deus é sádico e  tristeza é sinônimo de redenção.

Sou teólogo diferente, gosto dos olhos para ler poesia, gosto de meus braços para o abraço, gosto da boca para o beijo, sou criança/filho de Deus, brincando com o presente que ele me deu. Corpo é presente de Deus. Prazer é presente de Deus, porque tudo o que é belo vem de Deus, e Deus é amor, seja ele negro ou branco, casado no papel ou não, homem ou mulher, homo ou hétero.

No mesmo PVC passa água e cajá.

Clarence Santos

“Livremente inspirado no Rubem Alves e no moleque que até hoje vive pelo mosteiro de São Bento em Olinda atrás de cajás e mangas…”

Alma…

“E ela ficava a toda hora buscando respostas,
E sem elas inquietava-se, corria, fugia, se esquivava,
Pois queria provas, dados empíricos
para alimentar sua alma antes de um possível “sim”…

e assim ela deixava escapar uma verdade…

que a alma não se alimenta
De fatos,
De dados,
De provas,
a alma, na verdade, de verdade
Se alimenta sim,
É de sonhos e encantamentos…”

Clarence Santos

 

(Ilustração: Memeto Oliveira)

“Da fruta do pecado…”

E comentando hoje sobre paixão, alguém me fala:

“Podia publicar e colocar uma foto de uma maçã, fruta do pecado…”

Na hora que ouvi, retruquei,

Não dá pra dizer que maça é fruta de pecado,

Maçã é fruta triste,

Sem graça, seca, sem gosto, massenta

 

Sempre disse que paixão no começo tem gosto de tamarindo,

Acido, azedinho, mas doce no geral,

Todo mundo que experimentou sabe como é,

Quando a gente olha, a boca saliva, o coração pede…

 

Mas de verdade mesmo,

Se fosse escolher uma fruta da paixão, do amor

Essa seria a manga… Hummm

Essa sim com cara de pecado…

 

Paixão não deve ser só para os olhos, como a maçã,

Carregada na beleza, na estética, mas seca dentro

Mas paixão tem que carregar desejo,

Pois paixão é manga,

Fruta que se despe no toque,

Com potencial erótico…

 

Na manga se lambuza,

Se carrega o cheiro por onde passa…

Se livra de todo pudor

E deixa escorrer por entre os dedos

E no canto da boca o sabor doce que ela carrega

 

Manga é desejo como paixão…

 

Clarence Santos