A dança do corpo (ou A Noite)

Sinestesia (3)

 

Num andar cadenciado ela entrava no apartamento

Me esquecendo um pouco enquanto a tudo observava

Os quadros na parede, objetos, imagens

Tudo iluminado a meia luz de um abajur no canto da sala

 

Fechei a porta e fui ao seu encontro,

Ela virou, sorriu, e eu respondi…

 

Nessas horas que sou invadido por varias sensações

Boas em varias partes, e gosto de cada uma delas…

 

Do flerte,

Do olhar,

Do frio na barriga na hora de chegar perto,

De como ele aumenta quando a gente chega mais perto

E sente o cheiro da respiração,

O calor do corpo encostando,

O toque…

 

E o toque é sempre sem querer, discreto, tímido

Assim se segue…

 

A mão encostando,

Subindo pelo braço,

Buscando as costas,

Procurando o abraço,

Puxando o corpo ao encontro,

Tive aquela sensação do encostar

 

E enquanto nos tocávamos ainda timidamente

Os olhos se encontravam, agora não mais em fuga

Desencontravam sim, mas não tentando se esconder, mas descobrir

O rosto, a boca, os sinais, o momento…

 

Senti pela primeira vez ali, em meio ao calor de nossos corpos,

E ao arrepiar dos primeiros toques,

O Cheiro de sua respiração…

 

Ele precedia a tudo,

O momento em que sabia o que aconteceria,

E ainda assim ficar nervoso,

O não saber, sabendo…

Que aumentou nosso ritmo, nossa respiração

Por uma fração de segundos, mas que me pareceram eternas

Uma conexão de alma…

 

Senti,

Senti-la

Deixei ser sentido…

Nessa hora o beijo

O beijo que acende/ascende o corpo

E ao contrario do que se pensa, ele não se deu com a boca

Mas com o corpo todo

Nos braços puxando ao abraço

No roçar das pernas

É dançar com as mãos nas costas, passear, arranhar, acariciar

A outra sempre ajuda no principal,

No toque dos lábio

Se entrelaça por entre cabelos, se encaixa

Se faz um no emaranhado, puxando pra perto do toque

Lábios, língua, respiração, coração pulsando forte

Sendo sentido, peito no peito

Mas não só boca, beijo serve pra descobrir o corpo

Cada canto, cada sensação

saber os pontos certos pra fazer tremer o outro corpo, arrepiar, gemer

Tudo

 

A hora que se seguiu foram das roupas caindo,

O corpo foi se descobrindo e desabando

Se remontando como num horizonte belo em noite de lua

Se encontrando…

Aquela hora do abraço, pele com pele

Sentir o pelo arrepiando em se roçar

Pernas se encostando, se entrelaçando as pernas,

Fazer sentir cada parte do corpo com as pernas

Fazia achando que estava sendo discreto,

Mas que na verdade o ela sentia e gostava,

Fazia o mesmo

 

Nessa hora que o beijo passeou, tomou vida

Não responde mais a mente, é instinto, ele sabe

Ganhou o seu caminho descendo pelo rosto, queixo, pescoço

As mãos vão seguindo na frente, descobrindo o caminho por onde ele deve experimentar passar

Nisto todo o resto desce com a boca, como descendo de uma escalada

Conhecendo não só com a boca,

mas com o corpo inteiro cada canto do outro corpo,

Com as mãos, pernas, cheiro…

 

A boca seguiu as mãos, que desciam até chegar nos seios e brincaram…

Paraísos no meio do corpo, de beijar, cheirar, mordiscar

Uma brincadeira de revezamento, mão, boca

As mãos não se aquietaram tanto ali, brincaram com o resto do corpo

 

Foi bom a sensação de enquanto beijava, mordia, brincava,

Sentir as mãos passeando pelas costas, pelo lado do corpo

Descendo pela perna, sentindo coxa,

Ouvir a resposta do seu corpo a brincadeira

E a boca desceu até os pés, em beijos e vontades

Observando o corpo que dançava discretamente a cada toque

E subiu, por entre as pernas a experimentar uma sensação transcendente

Ela tremia, balbuciava algo que meus ouvidos não entendiam, mas o corpo sabia

Sentia suas mãos em meus cabelos, a me puxar para si

Seu corpo dançava em mim…

 

Até que me puxou, me trouxe aos seus lábios

Me prendeu em suas pernas

Enquanto suas unhas se encravavam em minhas costas

Naquele momento éramos um

Encaixamos,

Encaixados

E como se algum som tocasse em nossa mente,

Dançávamos numa cadencia só nossa

Num balanço do ritmo de nossas almas

 

E na delicada violência de nossa música

O corpo desafiava a física,

O gosto se tornou mais doce,

O cheiro se fazia sentir no ambiente,

As almas misturadas como uma

O êxtase em explosão

O universo nascia em uma cama…

 

Clarence Santos

 

(Imagem: Memeto Oliveira)

 

 

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O Cheiro da alma

SINESTESIA (2)

O sol já invadia o quarto numa inundação de beleza

Lambendo nossos corpos lentamente como um ato de amor

O vento sopra o cheiro de manha que invade o local e se mistura

Ao cheiro de nossos corpos ainda impregnado no ambiente

E é doce…

 

Ela deitada ao lado, iluminada pelo sol, como numa pintura

Seu corpo delicadamente posto na cama se apresentava com perfeição,

Os olhos fechados e protegidos no escarlate de seus cabelos assimétricos

Me encantava

 

A delicadeza da cena se ascendia em mim como se montada para um filme

As pernas entrelaçadas a minha, de bruços, abraçada ao travesseiro

Numa tranquilidade que transcendia a tudo que acontecia no mundo lá fora,

Ali estávamos em nossa catedral, era nossa oração…

 

Aproximei meu rosto e meu corpo,

O seu calor me acendia,

E o único movimento me tocou a alma,

Era sua respiração…

 

Ela se fundiu a minha e o seu cheiro era doce, suave, desejo…

 

O cheiro de sua alma invadia a minha com vida,

O meu lhe chamava…

 

Ela piscou, me viu, percebeu, sentiu

Sorriu,

Se aproximou e delicadamente me tocou os lábios com os seus,

Me puxou, abraçou

E sem dizer nenhuma palavra a mais, deitou no meu peito

E adormeceu…

 

Clarence Santos

 

(Ilustração: Memeto Oliveira)

Sinestesia

A Garota do Sobrado

 

A porta do sobrado parecia um quadro de moldura antiga,

Quando o sol bateu logo pela manhã,

Ela se desenhou como um pintura em preto e luz

Numa silhueta que se descobriu como inspiração de meu encantamento.

 

Como quem pensava na vida ela olhava o céu, e a vida era boa,

Pois um sorriso se discreto se abria no canto direito da boca

Deixando escapar os sonhos que brincavam em sua mente.

Os cachos de seus cabelos negros que ignoravam a simetria

Eram acariciados por sua mão

Enquanto seu cotovelo se apoiava no portal.

Sua outra mão levava a boca o cigarro

Que o trago tratava de transformar em nuvem

Tendo o céu azul como pano de fundo…

 

O corpo nu aparecia divino em suas curvas acentuadas

Pelo brilho e as sombras

que dançavam nelas

Em cada balançar, cada se ajeitar…

 

O cigarro acabou, o rosto virou

Trazendo um sorriso de surpresa e timidez diante de meu olhar

O corpo girou e caminhou em minha direção,

E agora o sorriso era meu…

Subiu na cama como quem escala se apoiando em meu corpo,

E com os cachos agora caindo sobre meu rosto

Assinava a obra de arte no sorriso e em um beijo.

 

Clarence Santos

 

(Ilustração: Memeto Oliveira)